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Kabelo e o Panelaço Ritmico
Ritmo está na pele, ritmo está no sangue.
Não há quem fique indiferente a uma boa batucada, à marcação de uma escola de samba, ao toque suingado de um baixo.

Um dos músicos da novíssima geração que melhor professam a fé no ritmo é o baixista KABELO. Paulistano, de nome civil Alexandre Fonseca, lança pela Circuito Musical seu primeiro CD, auto-intitulado. KABELO, o disco, é um tratado de boa música pontuado por um impressionante caldeirão sonoro.

Escudado por músicos igualmente talentosos, casos de Leandre Gomes na guitarra e violões e de Edson X na bateria e percussão (e que também assina a produção), KABELO faz uma viagem ritmica das mais ricas, indo de sonoridades afro ao cerne do rock’n’roll, tudo marcado por seu baixo vigoroso.

O baixista assina quinze das dezesseis faixas. É impossível não se contagiar com temas como o pulsante rock afro  Uga Bunga (que aparece em duas versões) ou Funkapoeira, onde o músico descobre a irmandade entre o funk e a capoeira através da sonoridade do baixo e da guitarra fazendo as vezes de um arrepiante berimbau. Sereia é outro daqueles temas que sacodem o esqueleto, puro american funk a la Parliament-Funkadelic-Kool & The Gang-Earth, Wind & Fire-Sly & Family Stone e, claro, o pai de todos: Ave, James Brown!

Além da festa ritmica, KABELO também capricha nas letras, como na ácida Candangolândia, onde não poupa nada nem ninguém e pega pesado. Mesmo. Diz o que tem de ser dito sem alisar. Primal Hi-Tec é uma das faixas em que o músico mostra sua perícia com mais intensidade. Perícia nas cordas e no verso, que prossegue na desesperada Carta para Nóia, intrigante jogo de palavras emoldurado por baixo e guitarras densos e pesados.

Distorção é a palavra de ordem em Lava, uma quase-valsa que evoca Sepultura. Parece canção auto-biográfica, nela KABELO se define como artista e como gente.

Em Naquê-brada a atmosfera romântica de arranjo e melodia se contrapõe à rudeza da letra, um tratado sobre a temida ‘lei do mais forte’. A verdadeira música urbana marca espaço no funk Sou da Rua. Em Baixo Radioativo, KABELO faz uma elegia à sonoridade que extrai de seu instrumento, A rechear o tema, uma guitarra ao melhor estilo Nile Rodgers na fase Chic. Ou seja, ritmo puro.

Lavagem Cerebral é um afoxé eletrofunkeado. Óleo da Máquina traz mais um exemplo da capacidade que KABELO tem de fundir sonoridades. Trata-se de uma curiosa mescla de embolada e funk. Bumbo é uma bem engendrada parceria entre baixo e percussão. Em Linguicity, que começa com uma inocente levada bossanovista, o músico faz uma pesada crítica à violência urbana em suas diversas formas, em tema que deságua num rock dos mais pesados, com direito a muita distorção.

A única releitura do CD é Papagaio do Futuro, do grande Alceu Valença, que traz à lembrança o melhor do mangue bit. Realmente, Alceu é profético e KABELO soube, como poucos, captar suas reais intenções.

Em vários momento, KABELO faz rap da melhor qualidade. Inquieto e extremamente antenado, não se deixa em nenhum momento aprisionar pelos grilhões de meras sete notas musicais. Pelo contrário, explora os meandros de seus desdobramentos. Torce, inventa, reinventa, molda, esculpe acordes. É, em suma, um grande arquiteto.

Ligado à música desde os doze anos, começou no piano migrando para o baixo aos dezoito. Conviveu e convive com o melhor da música brasileira. Para se ter uma idéia, foi roadie de Toquinho por dez anos. Hoje, são parceiros… Só isso já dá uma idéia do que KABELO é capaz de fazer musicalmente. Seu CD de estréia é prova disso. É ouvir e conferir!

Toninho Spessoto                           

Julho 2007